post

Como seria uma escola diferente?

Já há algum tempo, a quarta-feira tem sido o meu dia preferido da semana.

Como  nessa tarde, minhas bisnetas vêm passar as tardes com a Bisa.

Venho registrando esses momentos esporadicamente, porém o dia de hoje ficará em minha memória para sempre…

Como sempre, minhas netas trouxeram as garotas, quem diria a netinha da Cléo, a Anna, a filha do Thomas  (temporona já adolescente)  e a netinha da Maria Clara (a cara da avó e,  claro, bailarina).

Quando as meninas chegaram, seus pratos preferidos já estavam prontos: pratos sofisticados e elaborados: feijão e arroz para a Anna, salada de tomate para a filha do Tho (que aliás não come nada, é vegetariana convicta, inspirada pela tia Clarinha), Chiquinho Pronto – carne moída com batatinha…e pudim de leite condensado.

O ponto alto do dia foi o “boletim” da Anninha. Ela chegou toda prosa e disse: “Bisa, você quer ver meu boletim?”

Eu disse: “É claro, minha querida”,  já imaginando e relembrando todos os estudos de caso feitos durante meus tempos na ativa…

Quando peguei o tablet para verificar, vi uma espécie de site personalizado da minha linda, ela me explicou que todos os anos os alunos elaboravam seus sites individuais com seu histórico escolar.

Perguntei  a ela sobre as notas e o desempenho da turma e ela riu. Ela disse assim: “Bisa, as coisas têm mudado a cada ano, mas o aproveitamento é individual.”

Comecei a explorar o site e encontrei ali todos os projetos desenvolvidos naquele período:

Pesquisas, estudos, campanhas sociais – a Anna tem como uma de suas características o engajamento social com causas ligadas à reciclagem. Estavam ali: entrevistas que foram feitas por ela e seus colegas com políticos e líderes comunitários, visitas a indústrias, ONGs e Simpósios internacionais.

Ela me explicou que a escola é aberta – funciona como um “quartel general, os alunos a partir dos 14 anos não são obrigados a cumprir um número de horas na escola, eles se apresentam em reuniões que são marcadas por eles, pelos seus  mestres ou até mesmo pelos pais, que frequentemente se candidatam como voluntários para participarem de algum projeto.

Ela me explicou também que eles próprios estipulam metas que se propõem a cumprir em cada etapa.

Para mim, era tudo muito novo e maravilhoso e é claro que pedi detalhes, nesse momento as outras duas mais novas com 6 e 12 anos, me explicaram que isso é super normal para elas, elas pensam em algumas metas e depois as discutem em debates com os pais, os mestres e com seus pares. Pedi exemplos e lá vão eles: que língua querem aprender ou aprimorar, que lugares querem estudar mais profundamente, que personalidade não tiveram tempo de estudar no último período, o instrumento musical que já iniciaram ou que pretendem conhecer, a técnica artística que ainda não viram, etc e aí veio a pérola: a pequenininha cheia de empolgação disse: “ Você sabe né Bisa, tudo isso que todo mundo quer saber !”

- “Pois é… pensei com meus botões”

Fiquei uns minutos tentando processar tanta informação e perguntei às meninas: “como vocês escolhem entre tantas coisas ?”

A mais velha disse que há dois  grandes festivais na escola  ao longo do ano. No início das atividades em janeiro  – é feito pela comunidade escolar – pais, mestres e os profissionais  da região um  grande Congresso. São dois dias de debates e discussões onde de são apresentados em palestras, em painéis High Tech, em stands – sugestões e propostas para o desenvolvimento dos  projetos individuais dos estudantes.

Maravilhada com essas notícias, eu perguntei se eram divididos em faixas etárias e as meninas em uníssono disseram : “É claro que não!”- rindo.

A de 14 anos me explicou que os estudantes de qualquer idade são chamados de Cidadãos Transformadores e que a sociedade tem obrigação legal de ajudarem na formação desses jovens que, desde muito cedo, compartilham os problemas sociais de sua região, de seu país, de seu planeta, com a intenção de “unir forças” como eles dizem:  passar a bola para as próximas gerações

A mais velha completou: “bisa, nossa obrigação como CT é receber tudo o que a Humanidade  acumulou através dos tempos e aprimorar, ampliar, adaptar e adequar às nossas novas necessidades e através disso tudo projetar o futuro que nós queremos para nós mesmos.”

A pequena, sentindo-se motivada por toda essa conversa, tomou a palavra e disse: “Sabe Zinha (de bisinha), esse ano eu conheci um grande homem, Eurípedes Barsanulfo, e soube que o nosso encerramento de fim de etapa é inspirado em práticas que ele adotava no século 19, aqui mesmo no Brasil. Ele reunia toda a comunidade para apresentar os estudos de seus alunos e fazia com que eles pudessem debater de igual para igual com as grandes personalidades da região: médicos, advogados etc”

“É assim que acontece nosso término de trabalhos ou fim de ano” – continuou a Anna. “Nós, os CT, apresentamos nossos  projetos  e  propostas de implantação em várias áreas. Nesses dias de APT Apresentação de Projetos Transformadores – aparecem os vereadores e políticos interessadíssimos  em construir suas plataformas de campanha baseados nas discussões e debates do  APT.”

Sentindo que era tudo fantástico demais para ser verdade perguntei: “E  os meninos,  seus primos, também se envolvem com  os ATP”s?

“Bisa, você não tem ideia,  a mamãe fica louca, os meninos não aparecem nem para as refeições (você sabe que isso sempre foi sagrado em nossa família), eles ficam responsáveis  pela montagem dos stands, pela recepção dos visitantes que vêm de outros lugares, além de seus projetos individuais .”

Nesse momento uma sombra passou pela minha cabeça e perguntei : “ As atividades são divididas entre os meninos e as meninas?

Elas riram muito e disseram : “Claro que não, né, Bisa!”

Respirei aliviada e continuei minhas milhões de perguntas:

“Nessa época, quem cuida dos pequenos e das crianças que têm necessidades especiais?”

Mais  um festival  de gargalhadas…

“Bisa, todas as crianças tem necessidades especiais.. Que ideia!?”

“Quando precisamos trabalhar em coisas que podem oferecer qualquer tipo de risco aos menores, nós nos voluntariamos para desenvolver os projetos delas em outro ambiente, você sabe né Bisa , algumas pessoas tem  o sentimento materno e de cuidar muito mais elaborado que os de outros por isso, aqueles que ainda não desenvolveram essa habilidade sempre se candidatam a abrirem mão de seus projetos por algum tempo para treinar.  Muitos escolhem desenvolver particularmente essa habilidade em seus  projetos individuais. Não sei se eu já falei disso, mas nossos projetos têm que atender duas frentes  -1. Como me desenvolver como ser humano?   -Habilidades intrínsecas  (amor, solidariedade, generosidade, espiritualidade, etc) 2. Como posso modificar meu entorno? (propostas que envolvam a comunidade onde eu vivo).”

Perguntei: “Tudo isso não é muito complexo para crianças e jovens?”

Elas me responderam: “Bisa, as crianças e jovens  lidam muito melhor com a complexidade da vida, foi comprovado cientificamente que as crianças, por terem mais vigor e autoestima, sentem-se capazes de mudar o mundo, por isso hoje, nossa sociedade cuida com tanto carinho da Educação (a Educação já é prioridade de investimentos em 80 por cento dos países), todas as diretrizes econômicas  são voltadas para o Bem-estar da infância. Neste grande movimento global  a valorização da criança só se equipara ao dos idosos, é incentivada a criação de vínculos profundos dessas duas gerações . As pessoas não veem a hora de se aposentarem para  voltarem para as “escolas”. São os idosos que ajudam a por em marcha os Projetos  Individuais.

Um pouco confusa eu perguntei: “Que idade tem seus mestres?: E a de 14 anos respondeu:

“Todas as idades, porém os que são mais valorizados têm acima de 50 anos, em sua maioria, se preparam por toda vida como educadores. Outros, porém, vieram das mais diversas áreas depois de sua aposentadoria  como voluntários, querendo dar sua parcela de contribuição para a  juventude.”

Eu disse: “Parece tudo muito sério meninas!” e elas disseram : “E é Bisa, mas é maravilhoso fazer parte da construção de nossa própria história,  aprendemos desde cedo que não somos donos de nosso passado, porém podemos e temos o direito de escolher nosso futuro.” A pequenininha logo emendou: “Não é o Livro Abítrio?”

Todas nós rimos e corrigimos da troca – nesse momento, com a alma, lavada, enxaguada e engomada, eu vislumbrei a imagem do meu querido Pestalozzi , da minha  filhamiga  Dó e uma lágrima correu pela minha face…

A  Anna então quebrou o clima e disse: “Será que depois desse discurso todos nós podemos almoçar?”

São Paulo, 22 de março de 2047.

post

Michel Teló e Hannah Arendt

Escrito por Mauricio Zanolini

Num dos últimos encontros do GEPPE, um dos participantes comentou que as crianças hoje estão expostas a músicas como “Ai se eu te pego” de Michel Teló, que acabou se transformando num “hit” mundial, e que por causa desse contexto é quase impossível introduzir Mozart ou outros estilos musicais que elevem o espirito. Pensando nisso, e depois de ler Hannah Arendt, eu apresentei para o grupo uma intervenção curta que chamei de – Desconstruindo Michel Teló.

A primeira coisa que fiz foi procurar a música sem o vocal. Segundo o pensador Walter Benjamin, tudo é linguagem, e o que fazemos é traduzir todas as diferentes linguagens que chegam até nós para uma linguagem que nos faça sentido, mesmo que façamos isso de forma inconsciente. Nós absorvemos e produzimos linguagem o tempo todo, portanto somos linguagem, assim como tudo também é. As melodias dos instrumentos, por trás da letra, também comunicam alguma coisa e a sanfona é o elemento principal nessa comunicação. Sem dúvida as características que aparecem na música do Michel Teló são o regionalismo, a evocação da dança e da alegria.

No filme “O Mistério de Santa Luzia”, que fala sobre a influência da sanfona na música regional do Brasil, o músico Gabriel Levy da o seguinte depoimento: “O acordeon por ser portátil, virou um instrumento muito conectado as tradições rurais dos países. É um instrumento que entra muito forte em todas essas expressões folclóricas de arte popular menos urbanizada. A cultura árabe medieval da península ibérica se transferiu pro Brasil, e se preservou no sertão pelo isolamento dessa região, diferente do litoral. A cultura nordestina, sertaneja, é muito conectada a península ibérica medieval então por isso que você preserva uma serie de escalas da musica modal, anteriores a musica tonal.”

A partir dai encontrei muitos exemplos de música tradicional e música regional por toda a Europa que tem a sanfona como instrumento principal. De músicas simples, executadas por artistas de rua em pontos turísticos da Servia, da Rússia ou da Itália, até a composições mais elaboradas como as de grupos como o português Madredeus, o som da sanfona cria uma atmosfera de nostalgia, de saudade, de memória. É interessante pensar que países que tem uma ligação muito forte com o passado, como Portugal e Argentina, tem uma presença muito forte da sanfona em suas musicas tradicionais.

Toda essa ligação com o passado distante e a tradição que o som da sanfona evoca, não foi a consequência de séculos de uso desse instrumento. O acordeon foi inventado na metade do século XIX, e portanto ele é uma inovação que modernizou toda a tradição anterior. A sanfona é um instrumento de sopro, como uma gaita, mas que, por ser alimentada por um fole, e não pelos pulmões do instrumentista, alcança uma potencia de som muito maior. Além disso ela tem uma série de sons graves no lado esquerdo (botões), e de sons agudos do lado direito (teclado), o que permite tocar duas melodias distintas simultaneamente, além da voz do instrumentista que faz a terceira melodia. Essa soma de instrumentos num só, fez com que os artistas tivesse mais mobilidade e pudessem levar suas composições e suas tradições musicais para outros públicos.

Soma -se a isso a fluidez do som que é uma característica dos instrumentos de sopro. O piano e o violão são instrumentos mais próximos da percussão porque é preciso bater nas cordas para produzir a vibração sonora. O violino tem no arco um componente que suaviza e faz com que o resultado seja um som imaterial. Todos os instrumentos de sopro, sanfona incluída, tem essa característica de fluidez, o que os liga a ideia de memória, de nostalgia, de intangível.

A música do Michel Teló tem dois componente muto fortes – a letra e a sanfona. A letra é a parte racional, de mais fácil identificação, que prende a atenção imediata. A sanfona é o afetivo, é a tradição, a nostalgia, que atinge o inconsciente do publico e explica o sucesso. Países e culturas diferentes reconhecem alguma coisa na música que não se explica, e por mais que a letra seja concreta e pouco imaginativa, a sanfona traz elementos universais reconhecíveis e nos cativa.

A filosofa da política, Hannah Arendt, escreveu – A crise na educação – em 1958, e a principal ideia desse texto é o conceito de “amor mundi”.  Para ela, o educador é o mediador entre o mundo que já existe e a nova geração que acabou de chegar nesse mundo. Cabe a ele a delicada e imprescindível função de entregar aos recém-chegados a ponta do fio que liga todas as gerações que vieram antes (tradição), e ao mesmo tempo estimular a inovação, para que esse fio avance e seja passado para os filhos e netos dos que estão vivendo o hoje.

Essa ideia é muito bonita e chama todos nós, seres humanos, à responsabilidade, nos lembrando que somos protagonistas da construção da sociedade e não vitimas dela. Essa ideia é ainda mais bonita à luz do espiritismo, porque se hoje somos responsáveis por passar a ponta do fio da tradição que herdamos das gerações passadas, e, através da nossa criatividade, inovar e reconstruir essa tradição para legá-la a próxima geração, sabemos que nós estivemos aqui, encarnados em muitos momentos diferentes, e que se estamos aqui agora pegando a ponta desse fio, fomos nós que puxamos esse mesmo fio até aqui. Somos portanto herdeiros de nós mesmos, responsáveis pelo nosso próprio caminho, e por isso mesmo, livres.

Talvez não seja possível fazer uma ligação rápida e direta entre Michel Teló e Mozart, mas certamente podemos ligar a inovação com o fio da tradição e apresentar um contexto ampliado desse mundo.

Seguem alguns links:

“Ai se eu te pego” instrumental - http://www.youtube.com/watch?v=dibjFgO3Ip8

Madredeus – “O Pastor” - http://www.youtube.com/watch?v=8kfcXkgM3HM

Música cigana russa – “Ochi Chorni” - http://www.youtube.com/watch?v=MkUOxJv4jmA
post

Cursos à distância! Inscrições Abertas!

Image

A Associação Brasileira de Pedagogia Espírita está oferecendo três cursos de extensão à distância.

• Introdução à Pedagogia Espírita –Coordenação: Dora Incontri. Docentes: Alessandro Cesar Bigheto, Alysson Leandro Mascaro, Claudia Mota, Dora Incontri, Franklin Santana Santos, Luis Colombo, Priscila Grigoletto Nacarato, Regis de Morais, Samantha Lodi.  (40 horas)

• Educação e Espiritualidade – coordenação: Dora Incontri. Docentes: Alessandro Cesar Bigheto, Dora Incontri, Franklin Santana Santos,  Luis Colombo, Luiz Jean Lauand, Ney Lobo, Priscila Grigoletto Nacarato, Regis de Morais.  Entrevistas com: Juarez Tadeu de Paula Xavier, Leonildo Silveira Campos, Monja Heishin Gandra, Rabino Alexandre Leone, Sheikh Muhammad Ragip al-Jerrahi. (40 horas)

• Filosofia para Crianças e Adolescentes: como e para quê? - coordenação: Dora Incontri. Docentes: Alessandro Cesar Bigheto, Alysson Leandro Mascaro, Astrid Sayeg, Dora Incontri, Regis de Morais, Rita Foelker. (30 horas)

 
Aulas gravadas, atividades, material didático.

Saiba mais:

11- 81558366
post

Nova turma da pós de Pedagogia Espírita se inicia em fevereiro

O curso de pós-graduação lato sensu em Pedagogia Espírita tem sido uma grande conquista da ABPE desde 2005. A turma de 2012 será a 8ª e começa dia 11 de fevereiro. Nesse mesmo mês, terminam as aulas da 6ª turma e as da 7ª ainda estão em andamento até 2013.

O que caracteriza o curso é o alto nível dos professores, o clima de paixão pelo conhecimento, as amizades sólidas que se formam entre alunos e antre alunos e professores. É um curso com conteúdo denso, mas não só. É um curso de resultados transformadores – é o que todos dizem. Mexe com a alma das pessoas, toca os corações. Muitos dos que fizeram os dois anos dessa pós, mudaram radicalmente de vida: às vezes de profissão, outros de posturas existenciais, outros ainda comentam ter passado  a entender de fato o que é espiritismo e todos saem acreditando que a educação é a única forma de mudar a si mesmos e o mundo.

Não é como alguns pensam, um curso elitista… pois participam pessoas de todas as áreas e mesmo quem não tem graduação pode também seguir as aulas, como extensão.

O fato de fazermos uma vez por mês possibilita a vinda de pessoas de vários lugares do Brasil e isso acaba criando um clima interessante de intercâmbio inter-estadual!

Vale a pena investir esses dois anos num curso profundo, inovador e o único no Brasil e no mundo que trata de Educação, Filosofia, Ciências, Artes, na visão espírita e que tem o reconhecimento acadêmico. A turma 8 terá a chancela da Universidade Santa Cecília, com que a ABPE mantém parceria desde a sua fundação, em 2004.

Esperamos você lá!

post

Natal de Isaías

(Arte de Lili Lungarezi)

 
 Noite de azul profundo:
Em silêncio de luz
respira o mundo.
Farfalham preces e asas
sobre os telhados das casas.
 
A voz do profeta
soa na noite quieta:
Porque um menino nos nasceu,
um filho se nos deu,
o príncipe da paz.
 
Divino príncipe herdeiro,
oculto na palha mansa,
Nasceu na noite e descansa
nos braços de Maria
e de José carpinteiro.
 
Quem na noite saberia,
Senão anjos e pastores,
Que desta raiz brotaria
sem terrenos esplendores,
desprezado, humilhado,
um homem sujeito à dor,
o mensageiro do amor?
 
A voz do profeta
atinge a noite alerta:
 
Carregará sobre si nossas dores
o Justo, o Servo de Deus.
Ele virá para os seus,
que não o conhecerão.
Esmagado por causa de nossa iniqüidade,
Maltratado, por nossos horrores,
Redentor da humanidade.
Mas livremente se humilha.
E por meio dele brilha,
triunfa o desígnio de Deus.
Um menino nos nasceu
e inaugura nossa trilha
para o Pai.
 
E a voz do profeta vai
anunciando na noite:
 
Não abrirá sua boca.
Como um cordeiro será morto.
Mas após o trabalho
fatigante de sua alma
sobre o horto
da cruz
Ele verá a luz
E se fartará.
 
A noite se veste de luz
para receber Jesus,
Redentor da humanidade!
E cantam vozes alegres e puras:
Glória a Deus nas alturas!
Paz na Terra, aos homens de boa vontade!
 
A partir das professias de Isaías,  que previu a vinda do Nazareno, esse poema de Natal, para relembrar Jesus!
post

Fenômeno de pintura mediúnica na ABPE

Di Cavalcanti

Domingo, dia 20 de novembro, o médium baiano Florêncio Anton Reverendo, esteve na sede da ABPE e do Instituto Pinus Longaeva, na Praça da República (SP), para uma sessão de pintura. Esse evento faz parte do encerramento do ano letivo do curso de Tanatologia, coordenado por Franklin Santana Santos e já virou tradição em todos os anos de curso. Mas neste ano, reuniram-se as turmas de Tanatologia e da Pedagogia Espírita, para participar da sessão. O fenômeno de pintura mediúnica é em si dos mais impressionantes e belos e consideramos na atualidade Florêncio o médium mais qualificado nesse setor. Em poucos minutos, brotam da tela Renoirs, Van Goghs, Monets inéditos e de uma beleza estonteante.

Abaixo, uma galeria de fotos do evento!

Franklin apresenta Florêncio

Florêncio conta de sua mediunidade, desde a infância

Falando de suas experiências na Europa…

Sobre a obra social que mantém com a pintura mediúnica…

Vai começar…

Renoir começa a festa das cores

O vaso de Renoir

A oferta de flores de Renoir…

O público emocionado, encantado…

Esboça-se um rosto…

Vai se delineando… é Renoir de novo

Em poucos minutos…

O rosto brota da tela

E explode em cor e beleza…

Viva Renoir!

A obra oferecida a nós por Renoir!

No forno, um Monet

Monet por inteiro…

Chegam os brasileiros… Portinari

E o magnífico Di Cavancanti!

Picasso entra em cena…

Picasso por inteiro

Voltam os impressionistas - Pissarro

E mais um Monet!

Locher, um pintor dinamarquês. Ele acompanhou Florêncio para o Brasil?

Um toque de sensualidade de Matisse

Van Gogh maravilhoso!

E um girassol de Vincent de presente para o Franklin!

Berthe Morissot encerra o dia

As flores de Morissot

Sidney Rocha, Florêncio Anton, Dora Incontri e Franklin Santana Santos, felizes depois do encontro com os pintores

post

Os robôs não nos invejam mais

Neste post resolvemos colocar o artigo publicado pela escritora Eliane Brum no qual ela, a partir da obra O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea - organizada por Alfredo Jerusalinsy e Silvia Fendrik, faz um retrato da sociedade contemporânea que, para se imunizar de qualquer transtorno pertinente à existência, se rende cegamente às fórmulas oferecidas pela medicina moderna e com isso caminha para uma robotização e porque não dizer, uma nadificação do ser.

OS ROBÔS NÃO NOS INVEJAM MAIS

Por Eliane Brum

Os primeiros robôs da ficção tinham um conflito: eles eram criados e programados para dar respostas automáticas e objetivas, mas queriam algo vital e complexo. Em algum momento, às vezes por uma falha no sistema, eles passavam a desejar. E desejar algo que lhes era negado: subjetividade. Condenados às respostas previsíveis, revoltavam-se contra a sua natureza de autômato. Humanizar-se, sua aspiração maior, significava sentir angústia, tristeza, amor, raiva, alegria, dúvida e confusão. Os robôs da modernidade queriam, portanto, a vida – com suas misérias e contradições. Ao entrar em conflito e ao desejar, os robôs já não eram mais robôs, mas um algo em busca de ser. Um ser humano, portanto. A partir desta premissa, grandes clássicos da ficção científica da modernidade foram construídos, como O Homem Bicentenário, de Isaac Asimov, que depois virou o filme estrelado por Robin Williams.

Hoje, a pós-modernidade nos encontra em uma situação curiosa: os humanos querem se tornar robôs. Cada vez um número maior de pessoas se oferece em sacrifício, imolando sua vida humana, ao deixar-se encaixar em alguma patologia vaga do manual das doenças mentais e medicalizar o seu cotidiano para se enquadrar em uma pretensa normalidade. E assim dar as respostas “certas”. Para quê? Ou para quem? Basta olhar ao redor com alguma atenção para perceber que, nas mais variadas esferas do nosso cotidiano, esperam-se respostas automáticas e objetivas. Seja na área amorosa e no “desempenho” sexual, seja no comportamento profissional. Até mesmo dos bebês espera-se que atendam às classificações previstas nos muitos compêndios sobre o que esperar de um filhote humano a cada fase. Vivemos no mundo dos manuais de todos os tipos, difundidos pelo mercado editorial e reproduzidos e amplificados pela mídia, que nos ensinariam um “modo de nos usar”, com o objetivo de alcançar um tipo específico e previamente anunciado de resultado.

Dar respostas automáticas e objetivas diante de situações determinadas nos daria um lugar no mundo dos “normais”. E dos bem-sucedidos, já que hoje a normalidade é determinada por um tipo particular de sucesso. Tornar-se robô na vã tentativa de apagar a subjetividade humana é, portanto, o que uma parte da humanidade ocidental tem desejado para si – e se esforçado para impor aos filhos. E nisso tem a ajuda decisiva da indústria farmacêutica, que possivelmente nunca tenha ganhado tanto dinheiro com psicofármacos como hoje, e de um certo tipo de profissional da medicina que manipula o “Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-IV)” como uma Bíblia.

A tese acima é o ponto de partida de um livro muito interessante lançado há pouco, chamado “O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea” (Via Lettera). A obra é organizada por Alfredo Jerusalinsy e Silvia Fendrik, dois dos mais brilhantes psicanalistas da atualidade. Mas, entre os nove autores brasileiros, nove argentinos, um mexicano e um francês, não há apenas psicanalistas, mas também psiquiatras, neurologistas e pesquisadores da área da neurociência. Em alguns capítulos a linguagem é árida, e a obra se beneficiaria de uma edição mais rigorosa e cuidada. Ainda assim, o tema é irresistível e a leitura abre muitas janelas de reflexão. Em certa medida, o livro responde às provocações de outra obra, “O Livro Negro da Psicanálise” (Civilização Brasileira), em que a psicanálise é violentamente atacada como “charlatanismo”. Mas, como os autores anunciam – e cumprem – “O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea” não é um mero contra-ataque, o que serviria apenas para empobrecer um dos debates mais relevantes da nossa época. E sim uma excelente oportunidade para discutir com inteligência e profundidade algo que diz respeito a todos nós.

Afinal, não é o caso de demonizar a indústria farmacêutica e a psiquiatria, como se tivessem o poder superior de nos fazer acreditar que os sentimentos e as contradições inerentes à condição humana constituíssem um estorvo dos quais fosse preciso se livrar com a maior rapidez possível. Tampouco radicalizar afirmando que os medicamentos não têm função alguma nem possam representar uma conquista em determinadas situações. É importante assinalar: existem casos em que os remédios são benéficos e podem ajudar a pessoa a sair de um estado de paralisia. E há bons profissionais que são parcimoniosos e responsáveis no seu uso, em geral por tempo determinado e com rigoroso acompanhamento, para que os efeitos colaterais das drogas não se tornem mais nocivos do que o problema que motivou o seu uso. Infelizmente, a realidade nos mostra que esta não tem sido a regra.

Vivemos hoje uma patologização da vida humana e um uso indiscriminado, abusivo e cada vez mais precoce de psicofármacos. A importância deste livro é nos ajudar a compreender o que isso diz sobre a forma como estamos vivendo as nossas vidas, sobre a qualidade do nosso desejo e sobre a lógica socioeconômica que tem movido nosso mundo. Para isso, de nada valeria trocar um dogma por outro. E o livro tem o mérito de não fazê-lo.

Se muitas vezes a ciência é colocada no lugar de divindade e damos aos médicos o poder de determinar como vamos viver – e como vamos morrer –, é porque nós permitimos que isso aconteça. Porque é mais fácil transferir a um outro a responsabilidade por escolhas que deveriam ser nossas. Ainda que seja difícil escapar das engrenagens do mundo, especialmente quando elas enriquecem as grandes corporações, em alguma medida é justo pensar que temos, se não liberdade, pelo menos uma paleta de alternativas. Com todos os riscos que implica escolher contra a lógica dominante.

Por exemplo. Quando os pais levam uma criança que não está dando as respostas “adequadas”, seja em casa ou na escola, a um psiquiatra ou a um pediatra ou a um neurologista ou a qualquer outra especialidade e saem de lá com um diagnóstico e uma receita de psicofármaco, não me parece que estão sendo enganados. Acredito que a ética do médico pode ser questionada. Mas acredito também que os pais, assim como cada um de nós, procuram – e encontram – o profissional que vai dizer aquilo que gostariam de ouvir.

Hoje parece mais fácil para os pais lidar com um diagnóstico de transtorno psiquiátrico e tentar calar seus filhos com medicamentos do que empreender uma travessia que seguramente será mais espinhosa, exigirá tempo e dedicação maiores e poderá levar a respostas impossíveis de prever – quando não a novas perguntas. Da forma como hoje é colocado, o “transtorno” mental aparece como algo que está convenientemente fora, não tem nada a ver nem com o paciente, nem com o funcionamento da família. Sem contar que parte dos pais adora delegar a difícil tarefa de serem pais – e parte dos médicos adora assumir a prazerosa tarefa de ser Deus.

No capítulo intitulado “Gotinhas e comprimidos para crianças sem história. Uma psicopatologia pós-moderna para a infância”, Alfredo Jerusalinsky afirma: “Nos últimos trinta anos, tem havido um deslocamento das categorias nosográficas (de descrição das doenças) para o terreno dos dados. Não se questiona o que quer dizer este ponto, esta palavra ou este gesto fora do lugar. (…) Na trajetória que estamos descrevendo, foi se apagando esse esforço por ver e escutar um sujeito, com todas as dificuldades que ele tivesse, no que tivesse para dizer, e foi-se substituindo o dado ordenado segundo uma nosografia (descrição das doenças) que apaga o sujeito. (…) É assim que os problemas deixam de ser problemas para serem transtorno. É uma transformação epistemológica importante, e não uma mera transformação terminológica. Um problema é algo para ser decifrado, interpretado, resolvido; um transtorno é algo a ser eliminado, suprimido porque molesta. Os nomes das categorias não são inocentes”.

E, mais adiante: “De nossa parte, continuamos sustentando uma psicopatologia interpretativa, o que quer dizer não nosográfica, porque não depende de dados, não depende de sintomas, mas de deciframento. (…) Colocam na cabeça dos pais que eles não têm nada para ver nem entender e, então, eles se comportam como se não tivessem nada para ver nem entender; consequentemente a criança fica condenada aos automatismos mentais. Mas, claro, para eles só existem os automatismos mentais, então o que é preciso é trocá-los por outros”.

Quando as crianças apresentam um comportamento não esperado (esperado por quem e para quê?), a resposta predominante de pais, médicos e professores têm sido não escutar, mas transformar expressões em transtornos porque o que a criança diz, por palavras, gestos ou ações, pode transtornar os pais. E por isso precisa ser calado o mais cedo e o mais rápido possível. Em nome desta lógica, esquece-se de que somos seres dotados de inteligência e são poucos os que se questionam: se nunca houve tantos diagnósticos psíquicos (e, portanto, tantas patologias), se nunca existiram tantos medicamentos disponíveis para tratar essas doenças ou distúrbios, por que o número de casos não para de crescer e estaríamos vivendo verdadeiras epidemias de doenças mentais, transtornos de comportamento ou como queiram chamar essas síndromes que têm se multiplicado como coelhos? Não seria legítimo questionar: então, os remédios não curam?

Se aceitarmos como verdade única que o problema se resume a uma disfunção química no nosso cérebro, alheia ao viver, algo da ordem dos mecanismos fisiológicos, como o desarranjo de um sistema robótico, não bastaria “corrigir” com drogas para ser “curado”? Pelas estatísticas, tão valorizadas e difundidas pela própria indústria, sabemos que não é isso o que está acontecendo. O número de “depressivos”, “bipolares” e doentes do “pânico”, no mundo dos adultos, assim como o número de crianças com “transtorno de hiperatividade e déficit de atenção” e até mesmo com “autismo” não para de crescer. Se os remédios são tão eficazes e os diagnósticos tão fáceis de fazer como aqueles testes que a imprensa costuma publicar, do tipo “descubra se você é depressivo”, os doentes não deveriam diminuir em vez de aumentar? Afinal, sempre que a ciência descobriu a cura ou uma vacina para as doenças, iniciava-se um processo de redução no número de casos até a total erradicação.

Sobre este aspecto, os organizadores levantam uma questão interessante na apresentação da obra: “A ligeireza (e imprecisão) com que as pessoas são transformadas em anormais é diretamente proporcional à velocidade com que a psicofarmacologia e a psiquiatria contemporânea expandiram seu mercado. Não deixa de ser surpreendente que o que foi apresentado como avanço na capacidade de curar tenha levado a ampliar em uma progressão geométrica a quantidade de ‘doentes mentais’”.

Para complementar essa ideia, vale a pena ler a ótima entrevista feita pela jornalista Cláudia Collucci na Folha de S. Paulo de 18 de outubro. Sob o sugestivo título “Estamos dando veneno para as crianças”, Marcia Angell, professora titular do departamento de Medicina Social da Escola Médica de Harvard, critica a indústria farmacêutica por estimular o uso de medicamentos psiquiátricos em pacientes infantis. E também em adultos. Angell diz: “As pessoas creem que as drogas sejam mágicas. Para todas as doenças, para toda infelicidade, existe uma droga. A pessoa vai ao médico e o médico diz: ‘Você precisa perder peso, fazer mais exercícios’. E a pessoa diz: ‘Eu prefiro o remédio’. E os médicos andam tão ocupados, as consultas são tão rápidas, que ele faz a prescrição. Os pacientes acham o médico sério, confiável, quando ele faz isso. Pacientes têm de ser educados para o fato de que não existem soluções mágicas para os seus problemas. Drogas têm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do que o problema de base”.

O que vale a pena perceber é que ninguém é normal, mesmo. Basicamente porque não há como saber o que seja isso. O que não é razão para sermos todos tratados como portadores de algum transtorno mental desde bebê. Como afirmam Alfredo Jerusalinsky e Silvia Fendrik: “A generalização e multiplicação dos signos psicopatológicos preparam o território para a expansão industrial na fabricação de psicofármacos, que passam a ser consumidos em massa. Nasce assim uma hipocondria dos estados de humor, dos afetos, das dúvidas, dos desejos, das tristezas. As variações mentais e as singularidades pessoais são comparadas com uma média estatística que cria uma medida comum inexistente na realidade. Esse ‘boneco padrão’ subjacente descreve uma ‘normalidade’ definida pela uniformidade. Comparados com ele, viramos todos ‘doentes mentais’”.

A tentativa de classificar toda singularidade como anormalidade pode se tornar uma grande comédia. Em 1992, o psicólogo clínico britânico Richard Bentall propôs em um artigo para o “Journal of Medical Ethics” o seguinte: classificar a felicidade como distúrbio psiquiátrico e incluí-la no manual dos transtornos mentais (DSM-IV). Richard escreveu com grande rigor acadêmico e citou 32 artigos de importantes revistas científicas britânicas. Passo a passo, ele prova que a felicidade é um estado estatisticamente anormal, acompanhado por sintomas como disfunção cognitiva e marcado por uma percepção distorcida da realidade.

Os pacientes afetados por esse distúrbio apresentam um quadro de euforia, sem contrapartida real, podendo resultar em desvantagem adaptativa. Sem contar que há uma relação significativa da felicidade com obesidade e ingestão de álcool. Richard propõe que os psiquiatras busquem tratamento para a felicidade e sugere até um nome para classificá-la como doença mental: “major affective, pleasant type”. A história é deliciosa porque Richard percebeu que, para evidenciar o absurdo que estava – e continua – sendo praticado, só mesmo assumindo o discurso psiquiátrico, mas pelo avesso. Se a tristeza é tratada como uma anomalia que pode e precisa ser curada, por que não a felicidade?

Ao olhar hoje para nós, com seus olhos artificiais, com o que um robô se depararia? Acho que uma das respostas pode ser encontrada em “Wall-e”, a bela animação da Pixar. Aliás, fica uma dica das mais agradáveis: pegue na locadora estes dois filmes sobre robôs, mas de épocas diferentes, “O Homem Bicentenário”, inspirado no texto de Isaac Asimov publicado na década de 70, e “Wall-e”, que recebeu o Oscar de melhor animação em 2009. “Wall-e” é um filme brilhante, “O Homem Bicentenário” deixa a desejar, mas juntos podem ser um ponto de partida interessante para pensar – sozinho, com os amigos ou com a família – sobre as mudanças ocorridas nas últimas décadas na forma de enxergar a nós mesmos.

“O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea” afirma que o ideal pós-moderno é o pensamento simplificado: memória reduzida + seleção de respostas corretas. Dizem Alfredo e Silvia: “Enquanto a cibernética eletrônica procura engenhosamente capacitar seus robôs para responder a questões cada vez mais aleatórias, e até para formular perguntas, nós humanos somos levados a uma ‘padronização’ do controle da ‘mente’. Amparados em padrões diagnósticos cada vez mais amplos – depressão, TOC, Asperger etc –, incluem-se os mais heterogêneos conjuntos de sintomas justificando deste modo a utilização dos mesmos psicofármacos. (…) Em um mundo em que o sujeito se desvanece ao redor da promessa de ter respostas para tudo, curiosamente surgem e proliferam as ‘patologias’ (…). O modelo atualmente proposto substitui o saber pela informação, a falta pela completude, a busca pela resposta ‘já’, a singularidade da diferença pela repetição do idêntico, o enigma do passado e do futuro pela pretensa certeza garantida do presente. O ideal seria que adaptássemos nossa experiência àquilo que, com toda a propriedade, poderia se chamar: Homo Automaticus?”.

Um dos traços marcantes da modernidade é a descoberta de que nossa consciência é apenas uma pequena parte do que somos. Há um vasto mundo inconsciente ou pré-consciente que nos constitui. Assim, não deixa de ser curioso, ainda que bastante lógico, que a partir da descoberta transformadora de que a consciência nem nos governa nem é nosso “eu” total, de repente desejamos nos robotizar para escapar da aventura ao mesmo tempo extraordinária e assustadora que é criar uma vida. Será que o melhor acordo que podemos fazer com nós mesmos é engolir pilulinhas na tentativa de manter um ilusório controle sobre nossa mente e sobre o outro, quando se trata de nossos filhos? Pílula para comer ou para não comer, pílula para dormir ou para ficar acordado, pílula para ter desejo sexual ou para diminuir o desejo sexual, pílula para se acalmar ou para estimular… Como se a condição humana, com todas as suas ambiguidades, pudesse ser reduzida ao mero ajuste de um corpo-máquina.

O crescimento dos distúrbios mentais na mesma proporção das supostas pílulas da felicidade e de outros “ajustadores” da mente mostra que há algo que não fecha nessa conta. Enquanto puder, a indústria farmacêutica vai continuar ganhando com a transformação de qualquer sofrimento em patologia e com a consequente medicalização da vida. E, quando (e se) algo mudar, vão ganhar com outra coisa. Mas nós, nós e nossos filhos, só temos uma vida para viver da forma mais ampla e rica possível. Convém não perdê-la na tentativa de anular a singularidade que nos pertence.

Como dizem Alfredo Jerusalinsky e Silvia Fendrik, os organizadores de “O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea”: “Os robôs não precisam se preocupar, já que hoje em dia parecem ser eles os que encarnam o ideal: sem desejos, sem envelhecimento, sem falhas, com automatismos garantidos para cada situação específica, sem vacilação, tudo positivado em um pensamento ‘positivo’. No entanto, devemos sublinhar que, enquanto aqueles robôs dos anos 1930 representavam em sua rebelião os ideais de um modernismo romântico, os atuais ‘transtornos’, sob suas formas toxicomaníacas, bulímicas, anoréxicas, de padrões sociais de sucesso ou de quimiopsiquiatria, representam a obediência recoberta por um falso manto de liberdade”.

Por mais que tudo nos empurre para a patologização e a medicalização da vida na busca de uma normalidade inexistente, acredito que há algo do humano que resiste, que não é calado e que grita, ainda que dopado. É por isso que a conta não fecha. Porque, por mais que se divulgue a crença – e é neste momento que a ciência se coloca no lugar da religião – de que é possível controlar o sofrimento e garantir a felicidade, a humanidade que mora em nós desmascara essa ilusão dia após dia. E por isso é preciso encontrar uma nova panaceia para dar conta de cada novo “transtorno”.

Se a dor é inerente à vida, ela necessariamente não é algo ruim, mas algo que nos impele a buscar um jeito de viver que faça mais sentido para nós. Se a confusão pode ser infernal no cotidiano, com todas as dúvidas que ela traz, não há como achar algo ou a si mesmo sem ela, para em seguida nos perdermos de novo, porque é assim que alcançamos outros mundos também dentro de nós. A angústia não deve ser silenciada, mas ouvida, porque está nos dizendo algo que nos diz respeito. E, se você for pai ou mãe, é sua a responsabilidade de lidar com as questões trazidas por seus filhos, sejam em forma de palavras, de gestos ou de comportamento. É sua – e não dos médicos – desde que você escolheu ser pai ou mãe – e até que suas crianças progressivamente assumam a responsabilidade pelos rumos da própria vida. E, acredite, a melhor forma de lidar ainda começa por escutar. Escutar de verdade.

É na incompletude, que não se fecha com nenhuma pílula, que talvez possamos, individual e coletivamente, empreender uma busca sem nenhuma garantia, como são todas as buscas, que nos leve a criar uma vida que ainda possa fazer um robô aspirar a uma existência humana.

Fonte: Revista Época

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/os-robos-nao-nos-invejam-mais.html

post

Uma mensagem de Chico Xavier em Portugal?

Carola Richter Lotufo, Chico Xavier, Lucy Hackradt (atrás) Zaira Pitt e minha mãe, Cleusa B. Colombo em 1967 - conheci Chico desde criança, quando ele afirmava que nas últimas dez encarnações havia sido mulher.

Chegou-me hoje por e-mail uma mensagem, recebida em Portugal, por médium que não conheço, atribuída a Chico Xavier. E pela primeira vez, pareceu-me que fosse dele mesmo.

O que já indica de imediato essa autoria é a justificativa por que estaria mandando essa mensagem em Portugal, pela isenção necessária – leia-se, o clima não idólatra, que só fora do Brasil poderia achar. Ou seja, só fora poderiam lhe dar crédito. Se aqui alguém publicar uma mensagem do Chico, dizendo que ele não foi perfeito, que não está sentado à direita de Jesus… está fadado quase a ser linchado. Pois aqui, ele é o santo obrigatório.

Oportuníssima, portanto, essa mensagem – que como todas as mensagens, por todos os médiuns (inclusive pelo próprio Chico, quando encarnado), passa por um filtro de linguagem e adaptação do médium – que é sempre uma subjetividade encarnada, traduzindo outra subjetividade desencarnada. Então, pode haver aqui e ali uma expressão que Chico não usaria. Mas, no geral, o tom está bastante à moda de Chico, sentimental, pacificador, amistoso.

É pena que Chico não possa se comunicar aos brasileiros como um ser humano, que foi, exposto a enganos e desenganos, com grandes qualidades, com belo trabalho, mas também sujeito – como ele diz aqui – a fraquezas e tentações. Pena que ele não possa achar amigos a quem se confidenciar, pois só encontra pessoas de joelhos, prontas a idolatrá-lo, a colocá-lo num altar, que ninguém deve ocupar, pois somos todos “almas em trajetória, rolando em direção ao sol da vida”.

Acredito que isso deva ser motivo de angústia e solidão para um Espírito – sentir-se colocado num pedestal sobre-humano, apartado do companheirismo dos outros, para ser mitificado. O mito se sente terrivelmente solitário, porque deixa de ser gente, para se tornar uma projeção ideal.

E, por fim, acredito que seja mesmo Chico, porque ele está falando publicamente o que deveria ter falado mil vezes em vida, mas não falou: de não ter sido reencarnação de Kardec. Por isso talvez se penitencie nessa mensagem e diga o quanto ama Kardec, pois não falar isso enquanto vivo pode ter sido quase uma traição ao mestre.

Esperemos que com esse precedente, Chico possa achar outros médiuns que tenham a coragem de deixá-lo falar como irmão, como gente, como pessoa humana e falível, amorosa e sincera.

Fica aqui a mensagem para reflexão de todos (deixo a grafia portuguesa):

 

“À família Espírita de todo o planeta terráqueo.

É a ti meu filho que abraçaste a causa Espírita que me dirijo.

Detentor de um enorme sentimento de amor, responsabilidade e desejo de avanço de todas as almas, aqui estou novamente comunicando-me convosco.

Espero que compreendam, os amados irmãos Brasileiros, da necessidade de me comunicar noutro país, pois, é a forma mais isenta e disponível que encontramos, neste frágil momento que atravessa o Espiritismo. Agradeço comovido a todos aqueles que me carregam no coração afectuoso, relembrando-me nas recordações felizes e chorando na saudade. Porém, não pretendo que me coloquem em lugar que não me pertence estar. Não sou santo, nem fui perfeito, apenas vossos olhos ainda limitados ao conhecimento e vossos corações afectos de ternura, para me atribuírem tais e tais predicados. Sou uma alma em trajectória rolando em direcção ao sol da vida. Firme no propósito de fazer o melhor e causar o melhor à Humanidade, porém, nem sempre estive imune às tentações e fraquezas e por isso me penitencio a todos os queridos corações.

Venho humildemente pedir-vos e principalmente aqueles que me acompanharam de mais perto na caminhada da vida, aos que me enxugaram as lágrimas, aos que me mataram a fome, aos que curaram minhas feridas, aos que ouviram minhas palavras e aos que leram por mim os escritos, se for lícito fazer-vos um último pedido, aqui deixo expresso o meu desejo:

Que todos os Espíritas, principalmente aqueles com maiores responsabilidades aos olhos do Mundo, se possam avistar num evento, visando a colocação de um ponto final em todas as desavenças e histórias infelizes, equívocos e sobretudo agrupamentos e partidos. Peço-vos a retirada da Internet de todos os escritos que possam causar divisões, sofrimentos, ódios, perturbações físicas ou espirituais e descrença. Por amor a Jesus eu me libertei de tudo que na Terra me causou mágoa e sofrimento, pois tudo se reverteu em rosas que colhi no porvir. A Kardec amo profundamente e agradeço a luz. Não o fui realmente.

A nossa abençoada Doutrina Espírita nos foi trazida da bendita Espiritualidade, não é Doutrina nem Religião nascida na Terra, é foco de luz que nos conduz à paz.

Meus extremosos e tão amados filhos, o meu coração vos remete este pedido, o qual vos ficarei devendo para todo o sempre,

Chico Xavier ”

(página psicografada na noite de 21 de Setembro de 2010, pelas 22H30, no GEEAK/Coimbra, pela médium Maria della Rosa, durante os trabalhos mediúnicos)

post

Revista Superinteressante e a “Ciência Espírita”

Mais uma vez, a Revista Superinteressante perdeu uma ótima oportunidade de se revelar imparcial, ou pelo menos, respeitosa. Referimo-nos à matéria de capa, do número de outubro de 2011: Ciência Espírita.

Imparcialidade, sabemos, é uma utopia jornalística, que nunca será alcançada e talvez nem seja desejável, pois cada órgão da mídia representa fações sociais de pensamento, está aí para dar voz a determinado grupo e a certos interesses. O problema é que esses interesses não são explícitos, e mais, atualmente,  todos os órgãos de comunicação são hegemônicos e representam apenas uma forma de pensar e ver o mundo. Num sistema capitalista como o nosso, os grandes órgãos são grandes empresas e, como grandes empresas, muitas delas detentoras de monopólios de informação e de formação da opinião pública, não abrem espaço de manifestação para pensamentos alternativos, críticos ao sistema, dissidentes dos monopólios.

O pior de tudo é a forma manipuladora com que as matérias são conduzidas, para darem uma ilusão de imparcialidade, mas que induzem a um pensamento único, hegemônico.

Um dos monopólios ideológicos contemporâneos é o materialismo – ou ainda mais radical – o nihilismo. Qualquer tendência, pesquisa, ideia ou proposta, que ameace esse paradigma deve ser estigmatizada, ridicularizada, rechaçada a priori. É proibido duvidar de que somos meros produtos biológicos, determinados geneticamente e que nossa mente é um subproduto da química neural. Embora a ciência (juntamente com a filosofia, pois esse não é apenas um problema científico) esteja longe de ter fechado algum ponto de vista a respeito do conceito de mente – há uma unanimidade imposta, que não pode ser questionada. E a mídia é justamente a patrona das unanimidades dogmáticas.

Vejamos a matéria em questão. Comecemos pelo título de capa: a ciência não é espírita ou católica ou budista – a ciência é ciência e ponto. Ao assumir na capa o adjetivo de espírita – como ficará comprovado no final da reportagem – a revista desqualifica os cientistas que estão pesquisando os fenômenos de quase-morte e reencarnação, sendo que dos pesquisadores citados, são espíritas apenas os brasileiros, mas não os autores de fora, aliás respeitados internacionalmente.

Para os espíritas desavisados, o título Ciência Espírita pode soar como música, pois nós, espíritas, defendemos a existência de uma ciência iniciada por Kardec, com métodos próprios, para investigar os fenômenos que evidenciam a vida pós-morte. Entretanto, para a maioria das pessoas, chamar uma ciência de espírita, já a desqualifica de pronto, porque parece uma ciência pré-concebida, que parte de pressupostos já assentados. E para os pesquisadores como Sam Parnia, Erlendur Haraldsson ou Peter Fenwick, trata-se de uma afronta chamá-los de espíritas, pois pertencem a culturas onde o espiritismo de Kardec, tão difundido no Brasil, não tem nenhuma ressonância.

Como se trata de um assunto ainda polêmico, seria natural que os jornalistas ouvissem os dois lados: os pesquisadores de tais fenômenos e os críticos. As explicações de um lado e as explicações do outro. Isso é feito em certa medida, dando a sensação no decorrer da matéria de que a revista está sendo imparcial – apesar do diabo da maldade revelar a ponta da orelha em certos trechos, como quando ao tratar das experiências mediúnicas investigadas por Frederico Leão, lemos: “Para a maioria dos cientistas, uma coisa dessas soaria como um espetáculo circense, uma farsa.” Ou quando, os jornalistas acrescentam sarcasmo a um erro grave de informação (coisa muito comum na imprensa atual). Dizem: “O jargão (mente e cérebro) serviu para batizar o primeiro evento brasileiro dedicado às pesquisas sobre o além, o I Simpósio Internacional Explorando as Fronteiras da Relação Mente e Cérebro, em (de novo) Juiz de Fora.” Esse evento foi em São Paulo, no Centro de Convenções Rebouças.

Além das ironias, o problema central é que a matéria não coloca os dois lados e deixa a questão em aberto – o que seria  mais honesto. Os jornalistas (ou os editores, porque, muitas vezes, os editores remexem a matéria e imprimem o tom que a revista impõe) fecham com a negativa total, usando a seguinte tática: tanto dos fenômenos de quase morte, quanto dos casos sugestivos de reencarnação são narradas apenas algumas histórias isoladas. Isso em ciência não vale muito. Não se menciona que há uma casuística abundante. Por exemplo, em nenhum momento se fala que Stevenson, de que os citados Jim Tucker e Haraldsson foram colaboradores, coletou e investigou mais de 2500 casos de crianças com memórias de vidas passadas. A impressão que dá é que três ou quatro casos impressionaram homens ingênuos e com tendência a uma fé cega.

O tom final é que demonstra o que a Revista pretende que o leitor pense (pois é isso, ela quer impor um ponto de vista, sem nenhum respeito aos entrevistados, aos leitores e aos fatos): todos esses pesquisadores, brasileiros e estrangeiros, não passam de um bando de crédulos, homens de fé, que estão tentando provar o improvável. O mais incrível é a leviandade com que os jornalistas (que, diga-se de passagem, não são cientistas) pretendem derrubar a pesquisa de vidas inteiras: em apenas dois parágrafos, eles se referem a “evidências contra”. Quais?  Não são sequer mencionados outros cientistas que critiquem o trabalho dos colegas. O texto é dos próprios jornalistas; um texto confuso, tendencioso, com argumentos fracos e que termina da forma mais acintosa possível: “é difícil não acreditar que os pesquisadores de reencarnações, EQMs e afins, se movam mais pela fé que pela curiosidade científica.”

E assim, estamos conversados. Está dita a última palavra. Com meia-dúzia de frases, pensa-se garantir que o paradigma materialista, pelo qual a mídia zela com tanto fervor, permaneça intacto aos olhos dos leitores.

post

Espiritualidade no Século XXI: Educação, Saúde e Arte

 

A partir de uma abordagem inter, multi, e transdisciplinar,  O 2º Seminário Nacional Espiritualidade no Século XXI: Educação, Saúde e Arte objetiva apresentar e discutir a Espiritualidade com foco na sociedade contemporânea.

Promoção e Organização: Faculdade Messiânica

Informações gerais:

Modalidade: Seminário Nacional
Público-Alvo: Professores, pesquisadores e profissionais das áreas de Educação, Saúde, Arte e áreas afins. Estudantes e público em geral com interesse em Espiritualidade.


Local: Fundação Mokiti Okada
Endereço: Rua Morgado de Mateus, 77, Vila Mariana, São Paulo – SP, Brasil.
Data: 18 e 19 de novembro de 2011
Período de Inscrição no site: Até 31/10/2011
Investimento: R$ 60,00
Alunos da Faculdade Messiânica: grátis
Forma de pagamento: Boleto Bancário
Todos os participantes receberão certificados expedidos pela Faculdade Messiânica.

Conferencistas: Ruy Cezar do Espirito Santo e Dora Incontri.

Mais informações:  www.faculdademessianica.edu.br/seminario/

 

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.