Já há algum tempo, a quarta-feira tem sido o meu dia preferido da semana.
Como nessa tarde, minhas bisnetas vêm passar as tardes com a Bisa.
Venho registrando esses momentos esporadicamente, porém o dia de hoje ficará em minha memória para sempre…
Como sempre, minhas netas trouxeram as garotas, quem diria a netinha da Cléo, a Anna, a filha do Thomas (temporona já adolescente) e a netinha da Maria Clara (a cara da avó e, claro, bailarina).
Quando as meninas chegaram, seus pratos preferidos já estavam prontos: pratos sofisticados e elaborados: feijão e arroz para a Anna, salada de tomate para a filha do Tho (que aliás não come nada, é vegetariana convicta, inspirada pela tia Clarinha), Chiquinho Pronto – carne moída com batatinha…e pudim de leite condensado.
O ponto alto do dia foi o “boletim” da Anninha. Ela chegou toda prosa e disse: “Bisa, você quer ver meu boletim?”
Eu disse: “É claro, minha querida”, já imaginando e relembrando todos os estudos de caso feitos durante meus tempos na ativa…
Quando peguei o tablet para verificar, vi uma espécie de site personalizado da minha linda, ela me explicou que todos os anos os alunos elaboravam seus sites individuais com seu histórico escolar.
Perguntei a ela sobre as notas e o desempenho da turma e ela riu. Ela disse assim: “Bisa, as coisas têm mudado a cada ano, mas o aproveitamento é individual.”
Comecei a explorar o site e encontrei ali todos os projetos desenvolvidos naquele período:
Pesquisas, estudos, campanhas sociais – a Anna tem como uma de suas características o engajamento social com causas ligadas à reciclagem. Estavam ali: entrevistas que foram feitas por ela e seus colegas com políticos e líderes comunitários, visitas a indústrias, ONGs e Simpósios internacionais.
Ela me explicou que a escola é aberta – funciona como um “quartel general, os alunos a partir dos 14 anos não são obrigados a cumprir um número de horas na escola, eles se apresentam em reuniões que são marcadas por eles, pelos seus mestres ou até mesmo pelos pais, que frequentemente se candidatam como voluntários para participarem de algum projeto.
Ela me explicou também que eles próprios estipulam metas que se propõem a cumprir em cada etapa.
Para mim, era tudo muito novo e maravilhoso e é claro que pedi detalhes, nesse momento as outras duas mais novas com 6 e 12 anos, me explicaram que isso é super normal para elas, elas pensam em algumas metas e depois as discutem em debates com os pais, os mestres e com seus pares. Pedi exemplos e lá vão eles: que língua querem aprender ou aprimorar, que lugares querem estudar mais profundamente, que personalidade não tiveram tempo de estudar no último período, o instrumento musical que já iniciaram ou que pretendem conhecer, a técnica artística que ainda não viram, etc e aí veio a pérola: a pequenininha cheia de empolgação disse: “ Você sabe né Bisa, tudo isso que todo mundo quer saber !”
- “Pois é… pensei com meus botões”
Fiquei uns minutos tentando processar tanta informação e perguntei às meninas: “como vocês escolhem entre tantas coisas ?”
A mais velha disse que há dois grandes festivais na escola ao longo do ano. No início das atividades em janeiro – é feito pela comunidade escolar – pais, mestres e os profissionais da região um grande Congresso. São dois dias de debates e discussões onde de são apresentados em palestras, em painéis High Tech, em stands – sugestões e propostas para o desenvolvimento dos projetos individuais dos estudantes.
Maravilhada com essas notícias, eu perguntei se eram divididos em faixas etárias e as meninas em uníssono disseram : “É claro que não!”- rindo.
A de 14 anos me explicou que os estudantes de qualquer idade são chamados de Cidadãos Transformadores e que a sociedade tem obrigação legal de ajudarem na formação desses jovens que, desde muito cedo, compartilham os problemas sociais de sua região, de seu país, de seu planeta, com a intenção de “unir forças” como eles dizem: passar a bola para as próximas gerações
A mais velha completou: “bisa, nossa obrigação como CT é receber tudo o que a Humanidade acumulou através dos tempos e aprimorar, ampliar, adaptar e adequar às nossas novas necessidades e através disso tudo projetar o futuro que nós queremos para nós mesmos.”
A pequena, sentindo-se motivada por toda essa conversa, tomou a palavra e disse: “Sabe Zinha (de bisinha), esse ano eu conheci um grande homem, Eurípedes Barsanulfo, e soube que o nosso encerramento de fim de etapa é inspirado em práticas que ele adotava no século 19, aqui mesmo no Brasil. Ele reunia toda a comunidade para apresentar os estudos de seus alunos e fazia com que eles pudessem debater de igual para igual com as grandes personalidades da região: médicos, advogados etc”
“É assim que acontece nosso término de trabalhos ou fim de ano” – continuou a Anna. “Nós, os CT, apresentamos nossos projetos e propostas de implantação em várias áreas. Nesses dias de APT Apresentação de Projetos Transformadores – aparecem os vereadores e políticos interessadíssimos em construir suas plataformas de campanha baseados nas discussões e debates do APT.”
Sentindo que era tudo fantástico demais para ser verdade perguntei: “E os meninos, seus primos, também se envolvem com os ATP”s?
“Bisa, você não tem ideia, a mamãe fica louca, os meninos não aparecem nem para as refeições (você sabe que isso sempre foi sagrado em nossa família), eles ficam responsáveis pela montagem dos stands, pela recepção dos visitantes que vêm de outros lugares, além de seus projetos individuais .”
Nesse momento uma sombra passou pela minha cabeça e perguntei : “ As atividades são divididas entre os meninos e as meninas?
Elas riram muito e disseram : “Claro que não, né, Bisa!”
Respirei aliviada e continuei minhas milhões de perguntas:
“Nessa época, quem cuida dos pequenos e das crianças que têm necessidades especiais?”
Mais um festival de gargalhadas…
“Bisa, todas as crianças tem necessidades especiais.. Que ideia!?”
“Quando precisamos trabalhar em coisas que podem oferecer qualquer tipo de risco aos menores, nós nos voluntariamos para desenvolver os projetos delas em outro ambiente, você sabe né Bisa , algumas pessoas tem o sentimento materno e de cuidar muito mais elaborado que os de outros por isso, aqueles que ainda não desenvolveram essa habilidade sempre se candidatam a abrirem mão de seus projetos por algum tempo para treinar. Muitos escolhem desenvolver particularmente essa habilidade em seus projetos individuais. Não sei se eu já falei disso, mas nossos projetos têm que atender duas frentes -1. Como me desenvolver como ser humano? -Habilidades intrínsecas (amor, solidariedade, generosidade, espiritualidade, etc) 2. Como posso modificar meu entorno? (propostas que envolvam a comunidade onde eu vivo).”
Perguntei: “Tudo isso não é muito complexo para crianças e jovens?”
Elas me responderam: “Bisa, as crianças e jovens lidam muito melhor com a complexidade da vida, foi comprovado cientificamente que as crianças, por terem mais vigor e autoestima, sentem-se capazes de mudar o mundo, por isso hoje, nossa sociedade cuida com tanto carinho da Educação (a Educação já é prioridade de investimentos em 80 por cento dos países), todas as diretrizes econômicas são voltadas para o Bem-estar da infância. Neste grande movimento global a valorização da criança só se equipara ao dos idosos, é incentivada a criação de vínculos profundos dessas duas gerações . As pessoas não veem a hora de se aposentarem para voltarem para as “escolas”. São os idosos que ajudam a por em marcha os Projetos Individuais.
Um pouco confusa eu perguntei: “Que idade tem seus mestres?: E a de 14 anos respondeu:
“Todas as idades, porém os que são mais valorizados têm acima de 50 anos, em sua maioria, se preparam por toda vida como educadores. Outros, porém, vieram das mais diversas áreas depois de sua aposentadoria como voluntários, querendo dar sua parcela de contribuição para a juventude.”
Eu disse: “Parece tudo muito sério meninas!” e elas disseram : “E é Bisa, mas é maravilhoso fazer parte da construção de nossa própria história, aprendemos desde cedo que não somos donos de nosso passado, porém podemos e temos o direito de escolher nosso futuro.” A pequenininha logo emendou: “Não é o Livro Abítrio?”
Todas nós rimos e corrigimos da troca – nesse momento, com a alma, lavada, enxaguada e engomada, eu vislumbrei a imagem do meu querido Pestalozzi , da minha filhamiga Dó e uma lágrima correu pela minha face…
A Anna então quebrou o clima e disse: “Será que depois desse discurso todos nós podemos almoçar?”
São Paulo, 22 de março de 2047.










































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